Mandinga Urbana

Hidra, nossa Besta-Fera

Capoeira que é bom não cai

E se um dia ele cai

Cai bem

Berimbau, Vinícius de Moraes e Tom Jobim

Forças policiais são uma imensa hidra, grande e forte: treinadas em variadas formas para o combate, possuem armaduras e outros tipos de proteção, armamentos e respaldo do estado para usar da violência de maneira (quase) indiscriminada; lenta e burra, a unidade dá força às suas cabeças, à marcha da falange, porém as cabeças não tem nenhuma autonomia isoladas, pelo condicionamento à ausência de pensamento e por estar sempre aguardando o comando da cabeça central, sem a qual a besta-fera é inerte.

O cidadão comum, por outro lado, com pouca freqüência tem treinamento em combate, nenhum respaldo para ações mesmo que em defesa própria, mas pode, por outro lado, ser ágil e independente, encontrar armas e proteções improvisadas em todo o mundo, inclusive na mentira.

Enfrentar um adversário ou inimigo é mais um problema estratégico do que moral. Habita o senso comum a noção de que o herói se faz na figura do sujeito destemido que enfrenta uma força muito maior que a sua munido apenas de coragem. Apesar disso ser muito interessante em narrativas, não o é em termos estratégicos. Enfrentar uma força maior de frente é, na maioria dos casos, uma declaração de suicídio. Uma unidade policial, como a tropa de choque, está preparada e esperando pelo confronto, possuem um plano estratégico e uma organização para uma melhor eficiência de suas ações. A besta-fera não é invencível, mas se faz necessário pensar novas formas de luta para enfrentar esses grupos, para além de se lançar de frente.

A Hidra é sedenta de sangue, não possui propósito além da violência para a manutenção de uma tirania. Que se faça uso disso: veio para lutar, mas não terá ninguém para enfrentar. Fruste-a. Ao enfrentar uma força policial não conteste, agrida ou se oponha a sua autoridade. A dissimulação é uma arma muito funcional contra a força física –  não há em quem bater se os corpos não se engajam. A luta não deve ser avaliada por uma perspectiva moral, fugir não é necessariamente covardia, um movimento tem que atingir distintos sentidos e direções se quer uma maior eficiência. Deixar os policiais marchando sozinhos é uma estratégia, se organizar em outros lugares e recomeçar a luta não é fugir. A força policial quer dispersar a multidão e podemos dar isso a ela: deixe essa rua, há muitas outras para serem ocupadas. Os policiais precisam se re-organizar sempre e para isso terão que levar sempre o peso de todo seu aparato repressivo, o peso da sua imensidão.

O manifestante não precisa participar do protesto como indivíduo – portanto fraco – mas como coletivo, parte do bando, este sim forte, fluido, capaz de escorrer pelos becos da cidade e tomar forma em outro lugar. Capaz de confundir mil cabeças, dispersar-se e se organizar longe da Besta-Fera. Orgulho individual pouco importa para o bando. Abaixar a cabeça para o policial, dizer “sim senhor” e dar o que ele quer, não é ceder, pois a rasteira vem quando o inimigo relaxa e abaixa sua guarda, acontecimento comum após alcançar êxito ou ter seu ego alimentado. O bando pode ser ágil e não precisa se engajar em batalhas que vá perder.  Que nossa militância seja ardilosa e encontre sua força nas frestas do poder.

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Sobre Daniel Pires

Sou formado em história e sigo meus estudos no campo de jornalismo, estudando práticas colaborativas. Atuo como professor de história e atualidades em escolas e projetos sociais. Também sou envolvido com arte marcial. Sou shidoshi (professor pleno) na Bujinkan e eterno estudante, sob Michael Simien Shihan. Ver todos os artigos de Daniel Pires

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